Por Mario Garcia, Diretor Executivo da Exagro e membro da diretoria da APPS – Associação dos Profissionais da Pecuária Sustentável

Há alguns anos iniciaram-se várias discussões, às vezes acaloradas, sobre as questões ligadas ao clima. Desde os primeiros debates sobre o aquecimento global nos quais foram discutidos alguns posicionamentos que hoje, à luz da história, em meio a tanta coisa séria, tivemos também muito sensacionalismo e alguns mentirosos de plantão tentando levar alguma vantagem.

Inicio esta fala por este ponto porque começam aqui as justificativas para muitos pensamentos que alguns julgam inadequados mas que foram fortemente contaminados por tais extremismos.

Diante de tanta informação, bem ou mal embasada, mais uma vez polarizamos: quem acredita nas alterações climáticas como consequência das ações humanas e quem não acredita. Vai ser difícil mas creio que um dia a humanidade vai conseguir aliviar o peso destas dicotomias milenares de céu e inferno, Deus e diabo, mal e bem, etc. Culminando nos dias atuais com esquerda e direita, pobres e ricos, pretos e brancos e por aí vai… Tais extremismos além de corroborarem para a exploração por parte dos “santos salvadores”, alimentam também o processo de recrutamento de jovens como os que acabamos de ver nos últimos episódios da França.

Ou seja, tem muita gente que insiste em alimentar tais posições porque ganham alguma coisa com a situação na qual as pessoas deixam de procurar o embasamento científico ou mesmo a evolução deste para tomarem decisões convictas sobre o que conhecem pouco ou às vezes nada.

Este início foi para dizer que, não sei o que está acontecendo com o clima, não sei se tem aquecimento global mas tenho observado que os pés de manga estão frutificando fora do tempo, que os ipês estão florindo sem sincronia como era antigamente e que as chuvas estão bastante irregulares e em menor volume que no passado recente.

Diante de tal constatação, tenho pensado muito a respeito e gostaria de compartilhar com você leitor(a) tais reflexões que, espero que possam ser úteis no processo decisório, quando trabalhamos com pecuária. Apesar de circular por todo o Brasil pecuário, chama a atenção a escassez de chuvas no centro de MG desde a estação de chuvas de 2013/2014 e que se agravou bastante nesta estação 2014/2015. Situação esta que tem afetado grande parte do cerrado, abrangendo também outros estados e outros ecossistemas em alguns momentos.

“Mas o que podemos fazer diante dos desafios da natureza?” Perguntam alguns, já ensaiando como “jogar a toalha”. “Não há nada que possamos fazer!”

E é neste ponto que, respeitando o nível de estresse de cada um e as sequelas que a instabilidade climática lhe traga eu afirmo:

Temos muito o que fazer!

Na verdade quanto maior o desafio, mais temos o que fazer. E a primeira coisa é levantar a cabeça e sacudir a poeira. A escassez de chuvas, além de todas as sequelas produtivas, mina a esperança e com a fé abalada, deixamos de utilizar ou subutilizamos os recursos que temos. E o primeiro recurso que me vem à cabeça é a inteligência e o conhecimento que a humanidade acumulou ao longo da evolução, bem como a tecnologia que tanto avançou nas últimas décadas.

Vou justificar minhas convicções com alguns exemplos, que não devem ser tomados como diretrizes, mas sim como disparador para que cada um analise seu negócio e reveja o que precisa ser repensado e, talvez, planejado de outra forma.

O MANEJO: se antes o manejo era sempre visto como importante, agora ele talvez passe a ser um divisor entre tolerantes e não-tolerantes ao estresse climático. Conhecer a fisiologia da espécie que está sendo utilizada passa a ser crucial neste contexto. Em função da fisiologia e com os dados de solo e clima em mãos, ajustar a carga animal para a nova realidade em função não só da disponibilidade de matéria seca disponível, mas projetando ao longo do tempo as próximas “mexidas” é fundamental. Assim como no jogo de xadrez, é necessário pensar nas próximas jogadas e com as várias possibilidades de cenários que ocorrerão após a sua decisão. Caso contrário, o preço pode ser até a morte das pastagens por não suportarem a tríade pouca chuva, baixa fertilidade (ou baixa reposição de nutrientes) e carga elevada.

A ESCOLHA DA FORRAGEIRA: ao longo dos anos e das andanças, uma questão que parece unanimidade em várias regiões é a vontade de se trabalhar com a espécie forrageira que mais produza ou que está na moda. Nesta tentativa, muitas vezes “o tiro sai pela culatra”. Atrás de maiores produções ou melhores desempenhos, as pessoas migram de gramíneas adaptadas ao solo da fazenda para introduzir uma não adaptada sem lhe dar condições de fertilidade e, nos dias atuais, nem hídricas. A consequência que encontramos é a perda do potencial produtivo associada à perda de patrimônio na forma de solo, perda de fertilidade, perda de produtividade e por consequência, redução do estoque animal, o que retroalimenta o ciclo do empobrecimento.

Fig. 1 - Braquiarão em cerrado de baixa fertilidade

Fig. 1 – Brachiaria brizantha em cerrado de baixa fertilidade

O PREPARO DE SOLO: muitas propriedades na busca de melhoria das pastagens, optam por trocar a espécie forrageira utilizada, como comentado no item anterior, mas tal decisão ainda pode ser agravada pela deficiência no preparo de solo, correção, fertilização adequada e conhecimento dos nutrientes limitantes em ordem de prioridade. Gradear a terra e “jogar” sementes é operação perigosa nos dias atuais e principalmente em áreas de baixa fertilidade ou exauridas pelo uso.

Na semana passada fiz uma analogia com um pecuarista amigo dizendo que, cada vez que passamos uma grade tiramos uma vida da terra. A maioria das pessoas desconhece que além de vivo, o solo tem sua fertilidade baseada nos três pilares de fertilidade (química, física e biológica) e que toda e qualquer ação precisa ser planejada para minimizar os efeitos negativos da intervenção humana em um ambiente tão frágil.

Eu acredito que no futuro, com a evolução das instituições e redução da política podre, intervenções equivocadas serão passíveis de autuação por se tratar de patrimônio da humanidade. Não posso deixar de pontuar aqui minha crença de que, ninguém é dono de nada, o que humanidade criou foi um sistema de posse transitória em nossa breve passagem pela terra chamada de escritura e registro, mas que daqui a 100 anos alguém precisará das áreas de produção atuais para alimentar seus descendentes. Sem tirar o direito do “dono atual” de fazer o que quer e atribuindo-lhe a responsabilidade pelas consequências.

Fig. 2 - Tentativa de reestabelecimento do estande de plantas

Fig. 2 – Tentativa de reestabelecimento do estande de plantas

O PLANEJAMENTO: ahhh o planejamento… Esse “cara” merece uma atenção redobrada em dias de alto desafio. Vou tentar falar um pouco do que já vi e ouvi sobre planejamento.

“Mas as coisas não acontecem conforme planejado!” É isso mesmo, quem acertar um planejamento “na mosca” não é um bom planejador, é vidente! E aqui coloco a máxima: Planejamento não é trilho! Ou seja, não foi feito para ser seguido à risca mas sim para alinhar as ações, prever mudanças com diferentes cenários, envolver toda a equipe para dar suas sugestões e opiniões, dando condições de acessar a inteligência coletiva. Fica aqui o puxão de orelha para os “donos da verdade” que determinam o rumo sozinhos(as) e acreditam que comunicando à equipe o “seu plano” está tudo certo. Não está.

Costumo dizer que isso é mais ou menos como fazer promessa para o outro pagar. Plano bom é plano participativo, que envolva as pessoas, que contamine e provoque uma imensa vontade de fazer acontecer, afinal, “se eu participei da elaboração deste plano, ele é bom e vou fazer de tudo para que ele aconteça e possa demonstrar seus resultados”. Se alguém tiver dúvida desta diferença, experimente mudar a postura e verá a mudança e talvez comece a colher frutos paralelos, como menor rotatividade de funcionários, melhoria no conceito de equipe e envolvimento das pessoas com os resultados.

OS SUPLEMENTOS E ADITIVOS ALIMENTARES: as novas tecnologias nutricionais que estão disponíveis são a “cereja do bolo” da pecuária, que podem ser cereja para alguns ou pimenta para outros, vou explicar. As tecnologias disponíveis e validadas pelas pesquisas atuais são sensacionais em termos de elevar desempenho e consequentemente os resultados mas elas só funcionam para quem faz o dever de casa. E o dever de casa aqui é ajustar o manejo, saber sobre o desempenho de cada lote / categoria e planejar o momento de venda com a previsão de preço de venda, de preferência garantido na bolsa. É saber o consumo de cada tipo de produto conforme a categoria, sexo e época do ano e as variações dentro de cada agrupamento, para que se possa fazer eventuais ajustes.

Muitos comentários nos chegam sobre a viabilidade econômica no uso destas tecnologias e a resposta quase sempre passa pelo depende, se bem usado com critérios e gestão refinada muitas vezes “bate” em qualquer outra aplicação financeira disponível. Se for mandar para a fazenda porque meu vizinho gostou ou o técnico me recomendou, pode não trazer o resultado esperado.

Enfim, conforme comentado acima, estes são alguns exemplos para serem analisados todos os dias e que possivelmente você pode estar se perguntando. “Mas o que tem de novo nisso tudo aí?” Nada de novo, mas enfrentar os desafios atuais com equívocos antigos reafirma a crença Céu e Inferno com vantagem nítida para o segundo.

 

Essa publicação está postada em: Destaque.